Durante anos a primeira coisa que fazia ao acordar era esticar a mão e pegar no telemóvel. A luz do ecrã era a primeira luz que os meus olhos viam. Só depois me lembrava de abrir as cortinas.

Um dia inverti a ordem. Levantei-me, fui à janela e abri as cortinas completamente. Fiquei ali um minuto a olhar para fora. Só depois fui buscar o telefone. A diferença foi imediata. O dia começou com uma qualidade diferente — mais ampla, menos apressada.

A primeira luz do dia não precisa de ser a do ecrã.

O ritual da manhã

Hoje o meu ritual matinal é deliberadamente lento. Acordo, levanto-me e vou diretamente à janela. Abro as cortinas. Se o tempo permitir, abro também a janela alguns centímetros e sinto o ar. Só depois caminho até à cozinha, preparo chá, e só então — se for necessário — olho para o telefone.

Notei que este gesto simples tem um efeito em cadeia. Quando começo o dia com a luz de fora, tenho menos vontade de acender todas as luzes artificiais. Prefiro trabalhar junto à janela. O ambiente da casa fica mais suave.

O ritual da noite

À noite o movimento é o contrário. Depois do jantar começo a reduzir a intensidade das luzes. Baixo primeiro as da sala. Depois apago as da cozinha. Deixo apenas uma ou duas fontes de luz mais quentes e indiretas.

Este baixar gradual tornou-se um sinal claro de que o dia está a fechar. O corpo reconhece o padrão. Quando as luzes estão mais baixas, sinto menos vontade de abrir o computador outra vez.

Pequenos ajustes

Coloquei a mesa de trabalho o mais perto possível da janela. Uso cortinas leves. Tenho pelo menos uma lâmpada de luz quente para a noite. Evito olhar para ecrãs no escuro total.

Nada disto é revolucionário. São apenas formas de alinhar o ambiente com o que o corpo já sabe fazer. A luz natural deixou de ser um pano de fundo esquecido e passou a ser uma presença consciente.

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